terça, 26 Set. 2017
 
 

GALERIA DE AMIGOS DO AGRUPAMENTO

DAS GALERIAS E DOS TEMPOS

Eduardo Aroso
- Então meu caro Leonardo, mais uma galeria para a vossa grande arte!
- Ó meu velho mecenas, galerias me bastam as do nosso condado, mal nutridas pela corte! Mas dizei, de que falais?
- Sei que no vosso espírito, Leonardo, se agitam noturnas e grandes visões! E sois visitado em abundância pelas velhas teses helénicas....
- Sim, sim, dir-vos-ei, lentamente. Palavra de um da Vinci! Acompanhai-me no impulso favorável da manhã. A galeria, que brilha já com Apolo na minha mente, é ainda cripta, provando o alicerce, que se há-de erguer como a mais alta sequoia!
- Diria que tendes dormido nos braços dos deuses...
- Talvez, esta noite me segredassem pitonisas. Escutai... Disseram-me elas... galeria de amigos... sim, galeria de amigos...
- Mas sabeis, Leonardo, que Diógenes, erguendo a sua lâmpada, nem um único amigo encontrou nas ruas da velha Atenas, às duas horas da tarde, sob um sol claríssimo?!
- Sim, por certo, mas no nosso caso, acreditemos que «no entanto ela move-se...»
- Ela quem?
- Ela, a amizade.
- E de que maneira?
- Vo-lun-ta-ri-a-men-te!
- Mente?!...
- Nada de mentiras! Vontade, impulso, meu velho mecenas. (Pronto, deixemos o voluntariamente, apesar de ser uma futurologia infalível). Entendeis agora melhor que «no entanto ela move-se». Sabeis o que diria o ultra irónico e futuríssimo Eça de Queiroz? «Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade» Sim, na fantasia efémera dos céticos, porque a nudez forte da verdade é a de vo-lun-ta-ri-a-men-te erguer os corredores altos e belos da nova Galeria dos Amigos, sim a dos Amigos do Agrupamento de Escolas de Miranda do Corvo. E vai crescer, crescer, num entrelaçar, numa exuberância amazónica, oxigenante, numa polifonia com vozes agudas e graves, mas em acordes perfeitos, numa sinergia programática cuja palavra-passe é... (posso dizer-vos já) vo-lun-ta-ri-a-men-te.
- Mas, Leonardo, como ampliaremos essa sinergia, essa... ?
- Começando desta maneira: (entoando) «Amigo, maior que o pensamento, por essas estradas amigo vem».
- Oh, mas que graça de Euterpe! Que musas vos visitam mestre! Mas escutai. Todavia, no labirinto das mil ocupações, no labirinto cruzado das linhas da vida, ocupadas umas e mal definidas outras, poderemos perder-nos.
- Meu generoso mecenas, então não sabeis dos velhos livros que existe o fio de Ariadne? O fio que é o ideal, a meta, esse ponto imortal, zénite do meio-dia! O fio tocará cada um que seja caminhante e obreiro da galeria. E ninguém se perde.
(mudando um pouco o estilo coloquial)
- Um momento... Não ouves o Torga?
- Quem?
- O Miguel Torga, a caminho de Vila Nova! Escuta... vem de comboio.
- O quê?
- De comboio. O da linha da Lousã (oh! máquina do tempo, o que me falais agora, meu Deus).
- Já não existe. Pouca terra! Pouca terra! Pouca vergonha! Pouca vergonha!
- Escuta... O Torga. A sua Ode à Poesia, quase de certeza escrita no comboio para Miranda, nos bancos duros daquele tempo, mas eram bancos, bancos a valer!!! «Vou de comboio.../Vou/ Mecanizado e duro como sou /Neste dia, /E mesmo assim tu vens, tu me visitas! /Tu ranges nestes ferros e palpitas /Dentro de mim, Poesia!». O primeiro poema do primeiro volume do seu Diário abre assim: «Deixem passar quem vai na sua estrada./ Deixem passar/ Quem vai cheio de noite e de luar./ Deixem passar e não lhe digam nada». É curioso, temos o primeiro poema do primeiro Diário, escrito em Vila Nova de Miranda do Corvo, e do outro lado do concelho, no Senhor da Serra, também se escreveu a primeira página do primeiro livro do Ensino Integrado de Portugal.
- Uau, Leonardo! Não foi só o vosso Renascimento. Isto está a renascer por essas bandas!
- Como, assim?
- Então: a primeira escola de ensino integrado de Portugal foi e é uma coisa concreta.
- Tocaste num ponto sensível. O Estado não é algo abstrato. O verdadeiro Estado é concreto e feito de cidadãos concretos! E de materiais concretos, como aqueles ferros, rodas do comboio...
- Então, Leonardo esta nova galeria, esta Galeria de Amigos é uma coisa concreta...
- Concretíssima. Hoje já concreta e concretizada a partir de alguns, porque outros (entoando) «não sabem que o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida, como outra coisa qualquer...

 

Eduardo Aroso
Agrupamento de Escolas de Miranda do Corvo, 16/12/2014

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